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Relato escrito por: Mike Weiss - mrweiss@gmail.com

Foz do Iguaçu – Buenos Aires - Montevidéu e Punta Del Este

CAP 1

São Bento do Sul - SC, um dia qualquer de outubro/2004

Sábado cinzento, fazendo faxina no HD... achei aquele vídeo do Sunscreen feito pela DM9DBB. Eram mais de 70.000 bytes empoeirados (baixei o arquivo muito antes do "Pedro Boçal" resolver traduzir a poesia da forma mais antiquada possível). As palavras ficaram ecoando, especialmente aquela exclamação: "Viaje!...". Foi aí que pensei: puts, tenho que inventar alguma coisa nessas férias! Mas o que???
Parentada na serra do RS, de novo? Não...
Nordeste! Bahia, Ceará? Faltou originalidade né...
Hum... a Karina me convidou para ir à Sampa, subir para Campos no final de semana... Campos do Jordão no verão? Karina? Tenho certeza que a Daiana (minha namorada, que não gosta de viajar) não ficaria muito feliz com a idéia...
Mas eu tenho que dar um jeito de viajar!

Mochilão para Foz do Iguaçu... tá aí, destino legal, acho que pode ser interessante. OK, vou ficar 10 dias em Foz contando milhões de litros d'água caindo? O que mais tem ali por perto? Bem... por perto nada. Mas ali mais para baixo tem, tem... BUENOS AIRES! Bateu o frio na barriga, é pra lá mesmo que eu vou!
Não conheço nada nem ninguém da capital argentina... como vou me meter lá? Dar uma olhada no google não custa né. Fui vendo uns sites, mais outros... me empolgando cada vez mais.

Vou ligar para Pluma só para ver quanto custa (coisa de mochileiro iniciante Deixei recados no oviajante.com, no Orkut e mochileiros.com. Organizar o negócio era primeira necessidade... foi aí que começou a pesquisa de verdade.

Criei uma planilha no excel que foi crescendo aos poucos, no mês de dezembro ela já continha preço de quase todas as companhias de ônibus, diversos hostels, dicas e locais interessantes de BsAs, Montevideo e litoral do Uruguai. Planilha esta que foi parar nas mãos dos amigos (cagões), que sempre acabam desistindo quando vêem que o negócio é pra valer... mesmo) Pô, não é caro... rs.

Ainda em dezembro recebi a passagem da Crucero pelo correio. Final de ano, passou Natal, reveillon, praia e sol.... finalmente chegou o esperado dia 07 de janeiro de 2005, sexta-feira.

São Bento do Sul, 07 de janeiro de 2005

Sexta-feira, 16:00 horas, empresa fechando, chega de proformas, invoices e declarações de importação por uns dias... desligo o celular e ele dá a despedida de sempre: "Carpe Diem!" e eu respondo pensando: pode ter certeza, esses dias serão muito bem aproveitados! Quase não deu tempo para arrumar a mochila, o Expresso São Bento partiu para a capital paranaense às 19:00 horas. Vertigo - How to dismantle an atomic bomb - U2 no discman.
Chegada em Curitiba. Rodoferroviária cheia. Mochileiros chamam atenção! Não me considero um cara atraente, mas levei 3 cantadas num intervalo de 20 minutos... e elas não eram de se jogar fora não! rs (não deviam ser de lá... mulherada de Curitiba costuma ser fechada!). 21:20 embarquei no ônibus convencional da Catarinense, custou R$ 73,20 (caro). Valeu a pena, tem descansa-pés, banco reclina bem, motor silencioso...

CAP 2
Foz do Iguaçu, 08 de janeiro de 2005.

Foz do Iguaçu! (foi o que o motorista gritou). Não lembro de ter deixado Curitiba e já estava 700km distante de casa!
Circular para o terminal urbano. Lá avistei um casal de velhinhos misturando inglês com um espanhol muito pobre... ninguém conseguia entendê-los. É obvio que eles queriam ir até as cataratas! Perdi um ônibus quando fui ajudá-los... Ron e Nancy são dois professores canadenses aposentados (e pão duros). 20 minutos depois pegamos o mesmo circular. No parque das cataratas paguei o abuso de R$ 4 (agora o pão duro sou eu) por uma ficha do guarda-volumes (muitos estavam arrombados), confiei no guarda e na menina da loja, que ficaram de olho no armário.
No ônibus com teto transparente já pressenti que seria um dia de calor fora do normal. Percorri todo o parque (que é indescritível) com o casal canadense, foi divertido! A emoção na passarela da garganta do diabo é indescritível! Incrível como a natureza é forte... bom poder ficar curtindo o momento. Lembrei do amigo Adriano Floripa aqui do forum, que com muita sapiência disse que o lado argentino seria mais interessante, embora estivesse aconselhando a visita somente ao lado brasileiro, pois minhas 4 horas disponíveis não seriam suficientes para aproveitar com calma o lado argentino.
No terminal urbano me despedi do Ron e da Nancy, quais eu havia acostumado a chamar por grandpa e grandma (me convidaram para esquiar pelas bandas canadenses, acomodação seria na faixa... eheh, como se fosse tão fácil assim.)
No restaurante da rodoviária fiz um lanche, não perdi tempo e já estava batendo papo com duas dinamarquesas lindas (mediam quase o dobro da minha altura) elas estavam indo para São Paulo, uma pena... dali a meia hora eu estaria embarcando no double deck da Crucero del Norte!

Entrego minha mochila para o funcionário da Crucero, dou uma olhada para ver se ela foi bem acomodada e embarco no ônibus. Primeira impressão: gostei das poltronas, espaçosa, nunca havia reclinado um banco tanto assim...
O equipamento não é tão novo quanto os double deck da Catarinense, mas logo depois pude comprovar que o atendimento é que faz a diferença.
Partimos por volta das 14:30... chegamos na aduana brasileira, felizmente os mercosulenses podem ficar dentro do ônibus aproveitando o ar condicionado que já não vencia os 41ºC do lado de fora (sim, eu tive vontade de me jogar nas cataratas p/ ver se refrescava).
Fiquei conversando por uma hora com um casal de argentinos, até que o motorista esbaforido chegou perguntando se alguém falava inglês, pois uns noruegueses estavam com problemas, não falavam nada de português e pouquíssimo de espanhol. OK, meu corpo não estava muito afim de sair do ônibus, mas a consciência foi mais forte... Lá fui eu (me achando o herói) tentar ajudar os caras. Na verdade o problema era com apenas um deles.
O "indivíduo" perdeu o comprovante de entrada no Brasil, chorei um monte para a fiscalização, mas os caras são duros na queda! Resumindo: o "indivíduo" revirou a mochila inteira e achou um papel meio amassado...
- "Indivíduo": Is it?
- Eu (em claro português): éeeeee, esse mesmo! (acho q a minha felicidade foi maior que a dele, talvez o efeito da multa no meu bolso também fosse mais devastador que no bolso dele)
O cara agradeceu um monte, ofereceu Negresco e seguimos para a aduana argentina.
Ehehe, todo mundo com um papelzinho na mão! Que estranho... eu não tenho esse papel! Foi aí que conheci o único brasileiro do ônibus, me avisou que se tratava de um formulário entregue quando o bilhete é comprado. Eu havia adquirido minha passagem pela Lunatur em Curitiba, chegou pelo correio (sem o formulário)... nada grave, o próprio fiscal preencheu na hora e seguimos para o raio x das malas. Todas elas (inclusive bagagem de mão) passaram pela inspeção. Demorou... ainda bem que eu era o primeiro da fila, enquanto os outros aguardavam eu fiquei gastando meus primeiros pesos na lanchonete (climatizada!!!).
Todo mundo dentro do ônibus e logo tivemos que parar... rodoviária de Puerto Iguazu. Rodoviária? Aquilo é uma muvuca, muito legal... parece uma favela dentro de um galpão, gente esquisita, índios com cocar...
Na brincadeira de aduanas e rodoviárias perdemos mais de três horas (2 oficialmente, já que o relógio retrocedeu uma hora). Estradão... ê beleza, eu esticadão na poltrona 13 (primeira fila superior, sozinho, lado direito) redigindo os tópicos do "diário de bordo" Beleza nada! A estrada é muito monótona, retas retas, retas também... não demorou muito e chegou o comissário de bordo oferecendo medialunas calentitas, e avisando que o sol vai bater direto na minha poltrona até as 19:00... ele tinha razão. (na hora pensei: essa é uma dica para o pessoal do mochileiros.com) Juro que considerei colocar a sunga e pegar um bronze... mas desisti da idéia, puxei a cortina frontal e a lateral e me concentrei no Rei dos Anéis, que só acabou quando estávamos a cinco minutos de Oberá (periferia de Posadas) onde fica a garagem e restaurante da Crucero.
O ambiente do restaurante surpreende. Não parece um barzinho de estrada... é um restaurante mesmo, a comida é boa, mas é pouca para um homem adulto com fome (não é self service). Ali a confraternização é quase obrigatória, existem mesas reservadas para cada ônibus... Champagne, Champagne... si, por favor! O espumante não era dos piores...
Embarcamos de novo, estrada. Uns 15 minutos e chegou o "rodomoço" com uma bandeja acima da minha cabeça perguntando:
-Irrrqui?
-Eu: O quê?
-Rodomoço: Acepta uirrrqui!
-Eu (em pensamento): Ah... é whisky! Fiz sinal de positivo... eheh
Logo depois ele ofereceu umas balas (muito boas, por sinal). Acho que eram para tirar o bafo... não lembro do final da bala, só sei que acordei antes de uma ponte muito alta e bonita, o som do próprio ônibus tocando Fotografia do Juanes/Nelly Furtado (Achei legal o jeito sutil de acordar os passageiros) o luminoso ao lado da tv indicava 06:50, 23ºC. Lá veio o "rodomoço" de novo... deixou uma bandeja no meu colo, trouxe café, torradas, alfajor, bolachas, doce de leite (risos, eu não tinha noção do quanto essa gente come doce de leite).
E o outro brasileiro foi batizado logo na entrada de BsAs (sim, brasileiro é azarado!). O "rodomoço" perdeu o equilíbrio e derramou todo o copo de café... "**** happens", gritou um dos noruegueses num tom muito irônico, e o ônibus caiu na risada.
Enfim, chegamos no terminal do Retiro. Grande... muito agito. Última plataforma... e eu pensei: tomara que a minha mochila ainda esteja lá embaixo!

CAP 3

Olho de um lado, olho do outro... sim. Lá estava ela, bem escondida... minha mochila intacta foi entregue com a gentileza de sempre pelo pessoal da Crucero. Agora era todo o resto por minha conta! Atravessei o terminal inteiro, pois a saída era exatamente do lado oposto à plataforma 70. Centro de informações turísticas fechado (ainda bem que tinha impresso alguma coisa em casa).
Desci a "esteira rolante" ansioso, tentação para pegar um táxi. Fui forte e continuei em busca da estação de metrô (Subte, para os íntimos), dali já avistei a Torre dos Ingleses... passei por alguns pontos de ônibus e achei a estação. Fica o alerta: muito cuidado nas redondezas do terminal, a vizinhança não é muito pacífica. Chegando de ônibus, a primeira impressão é meio chata, mas revela a realidade da capital. Há uma "villa" atrás do terminal, se estiver caminhando, procure ter certeza de que está no rumo certo, sem entrar nas ruas secundárias.
Ali na estação do Retiro já comprei um "Subtepass 10 viajes", 7 pesos e eu não precisaria mais enfrentar fila cada vez que pegasse o metrô. Linha C, fui direto para estação da Av. de Mayo. Depois de subir as escadas, dei de cara com a Av. 9 de Julio e lá longe a cúpula do Congresso. A cidade estava totalmente vazia! Me senti o Tom Cruise em Vanilla Sky (ok, exagerei de novo).
Segui empolgado para a Av. Hipólito Yrigoyen (paralela da Av. de Mayo), muito fácil achar o Portal del Sur. Na recepção dei de cara com a Mara, uma argentina de cabelos desarrumados, sotaque muito forte e fala rápida. Bateu um "cagaço", não entendi uma palavra do que ela falou e ainda repliquei com o costumeiro "What???", já iniciando a confusão de línguas. Ela só estava tentando dizer que a minha reserva foi cadastrada com um preço abaixo do normal e que ela não sabia porque... ok, se era abaixo, beleza! rs Perguntei sobre as nacionalidades dos hospedes, ela citou muitas... e até brasileiros, apontando para um cara com piercing na orelha que estava no computador.
Tudo o que eu queria naquele momento era um banho... e acabei tirando o atrasado! Banho tomado, café da manhã gostoso (com doce de leite, claro), fui para o computador dar notícias para a família. O problema começou já na digitação do endereço, o @ não funcionava com shift, nem com alt, nem com ctrl, nem com todas as teclas ao mesmo tempo! Num espanhol meio irritado, soltei para a menina ao lado um "como se hace arroba?", e acabou que ela era brasileira (Ale, ainda não deu notícias hein!) e já de cara me disse que uma amiga dela estava esperando por mim, a Dani. Hahá... era a Dani aqui do mochileiros, muito gente boa ela exclamou em carioquês:
-Vc que é o Mike Veix? Ooooi gatinho (provavelmente decepcionada com a minha falta de altura) Vamux passarrr o dia com o Dudu e o Topine, deix horax a gente tá saindu, vem juntu.
Mundinho pequeno! Eu, Dani e Topine que pouco tempo atrás estávamos teclando por aqui, nos encontramos sem combinar nada. Legal como as coisas acontecem... Partimos para a feira dominical de San Telmo guiados pelo Dudu, que já conhecia a área (ele e o Topine haviam supostamente andado por aquelas bandas durante a madrugada... fazendo o quê eu não sei! ehehe)
O bairro vale a pena, casarões legais (alguns mal conservados, mas bonitos mesmo assim), antiquários por todos os lados... e a feira, que apesar de tão famosa, é muito menor que a da Rua XV em Curitiba, porém muito organizada e extremamente turística. Na Plaza Dorrego acompanhamos um casal dançando tango. Foi ali que senti realmente estar em Buenos Aires O clima do bairro está submerso em boemia, e sem dúvida é lá que a alma portenha está entranhada.
Almoçamos um bife de chorizo e seguimos de táxi para... quer dizer, tentamos seguir de táxi! Nenhum carro de teto amarelo parava para nós... seria uma revolução contra os brasileiros? Não, depois de ouvir uns resmungos de um taxista mais solícito, entendi que estávamos em 5 pessoas e que seria preciso dividir em dois carros, do contrário ele teria uma multa muito alta... Pois bem, foi o que fizemos. Eu, Topine (cara da orelha furada... eheh) e Dudu num carro, Ale e Dani noutro. O destino ditado em excelente portunhol pelo Dudu era La Bombonera (o estádio do Boca). No caminho trocamos caretas com as meninas no outro carro, mas eis que não mais as vimos... acidente de percurso. Elas apenas ditaram: La Boca, e foram parar no Caminito, enquanto nós esperávamos na entrada do estádio. Uma volta que custou P$ 2,00 a mais na conta delas. (táxi é barato mesmo em BsAs).
O museu e a visita guiada no estádio do Boca Juniors é interessante, mas não sei se vale os P$ 12 ou 13... a melhor parte é visitar o gramado! (sim, eu e o Topine trouxemos parte dele como souvenir). Seguimos a pé para o Caminito, e como todo bom brasileiro, iniciamos o caminho pelo final... é um "caminito" mesmo! Uma ruazinha estreita e curta, 15 minutos é o suficiente. A Ale estava empolgada tirando fotos nos painéis... ehehe, eu não avisei que cada flash custava P$ 1,00.
A vista da Puente del Transbordador é legal... passamos no Museo de Cera e visitamos o Museo de Arte do Boca, o terraço do museu tem uma vista incrível do Rio da Prata. Mesmo tendo pouca experiência em viagens internacionais eu sabia que museu era lugar de banheiro limpo, me senti obrigado a aproveitar... Do Boca seguimos de ônibus (foram algumas voltas) até a praça do Congresso, fotenha bem tradicional e retornamos caminhando pela Av. de Mayo. Supermercado em outro país é sempre um desafio... ainda mais sem a companhia das mulheres para assuntos tão gastronômicos como a quantidade de queijo e mortadela suficiente para 3 dias... (ah, copo descartável é caro na Argentina! Ta aí uma oportunidade de negócio...) A caixa do supermercado estende até notas de P$ 5,00 contra a luz... (não, não foi só a nossa cara de criminosos pós dia de "trotacion exaustiva", ela faz isso com todos)!

CAP 4

Não lembro se foi já na primeira noite em BsAs, mas decidimos eu, Dudu e Topine darmos uma saída. Passamos pelo Irish pub (perto do hostel), depois seguimos para Puerto Madero, que é incrivelmente bonito durante a noite... guindastes antigos iluminados, a Opera Bay, Puente de la Mujer, inúmeros restaurantes de conceito, (infelizmente todos estavam fechando) pena que os preços de lá não são os mais apropriados para "mochileiros econômicos".
Para não desperdiçar a noite, seguimos de táxi para a Recoleta. O preço aproximado anunciado da corrida era de P$ 5. No destino, depois de uma breve mas cálida discussão entre eu e o taxista, nos cobraram P$ 8. Perguntamos se havia alguma disco ou um bom pub aberto, as respostas sempre vinham em resmungo (a verdade era que o povo ainda estava revoltado e transtornado com o incêndio da Cromagnon há duas semanas atrás). O taxista chegou a nos dizer que não conhecia os lugares para sair e disse que se não tínhamos dinheiro para pagar táxi deveríamos andar a pé (provavelmente porque discordei do preço, e afirmei que ele realmente tinha tomado um caminho desnecessário)... foi uma exceção, a maioria dos taxistas em Buenos Aires são extremamente solícitos, simpáticos e honestos.
A Recoleta tem diversos bares, o mais agitado de todos era supostamente exclusivo para homens... no way, continuamos caminhando e achamos um lugar legal... não lembro o nome do bar, mas a garçonete se chamava Luiza e a Quilmes era realmente tudo o que prometia.
Enfim, o dia raiou na Capital Federal. A sensação de acordar numa cama, depois de passar duas noites dormindo em ônibus é incomparável. O teto de vidro do hostel se abre durante o café da manhã, revelando mais um dia sem uma nuvem no céu. Café é o horário da integração, todo mundo conversa, a torre de Babel é realidade...
Ale e Dani passariam o dia comigo, pois os cariocas gente boa já conheciam a maioria dos lugares pelos quais passaríamos. Iniciamos a jornada caminhando pela Av. de Mayo... as cantadas para as meninas não eram poucas, e muitas vezes repetidas, fui obrigado a tirar o dicionário para ver o que significava a palavra usada num tom tão malicioso para a Dani. Morocha = Morena. Explicado! Em BsAs existem poucas mulheres negras... Ale também ganhou um apelido: Cosa Rara... e assim continuamos a caminhada com a dupla Morocha y Cosa Rara para a Plaza de Mayo.
A Plaza é um lugar interessante, dá para sentir a vibração, a história que tem aquele local! Os prédios daquela região são incríveis, na maioria das vezes têm identificação assinada por seus arquitetos, tal como verdadeiras obras primas. A grama é bem cuidada, alguns trombadinhas atentos às bolsas de muitos turistas desatentos, posando para a tradicional foto em frente à Casa Rosada.
Descemos para Puerto Madero onde é indispensável caminhar na orla dos diques, nos fundos dos prédios de tijolo inglês. Não consegui ver a Puente de la Mujer se movimentando... pena. Os modernos arranha-céus das Catalinas dão impressão de estar num país rico e desenvolvido, homens de negócio caminham com pressa.
Seguimos pela Florida até as Galerias Pacífico. Foto em shopping é um micão, mas os afrescos tinham que ser registrados, poder tirar fotos de pinturas assim é "Cosa Rara"! Sem perder muito tempo, estávamos no final da Florida, na Plaza San Martin e Torre Inglesa. A Plaza é uma das mais bonitas que já vi... árvores centenárias, crianças brincando no parque, não fosse o calor, teria deitado no banco para dormir. Lá, fomos surpreendidos pela "troca da guarda"?... três guardas vestidos a caráter marchando pela praça, fazendo cena.

CAP. 5

Quem gosta de ler, não pode deixar de visitar a livraria El Ateneo (Av Santa Fe, Subte linha D estação Callao). A entrada é simples, tinha quase me arrependido de ir até lá... mas o interior é incrível! Segundo o Lonely Planet é a maior livraria da América do Sul! Trata-se de um cinema fundado em 1912, totalmente renovado e transformado. Óbvio que não é uma livraria moderna, nem muito confortável... mas como quase tudo em Buenos Aires, o clima do lugar conquista!
(excelente local para renovar as energias lendo um Hemingway e paquerar! Ah se eu tivesse uma livraria dessas por aqui...)
Quase ao lado do Ateneu há uma sorveteria Freddo. Infelizmente o preço dói muito no bolso, mas dou a minha palavra: é um dos melhores sorvetes que já passou pela minha boca! Peça para provar alguns sabores antes de pedir o seu (não custa nada!). Imperdíveis: Dulce de leche granizado, frutos del bosque e crema suiza. Já que o papo é comer, então vai dica de restaurante também:
Grant's - na Junin (não lembro o número) perto da esquina com a Santa Fé. É o maior tenedor libre de BsAs. Tem uma variedade incrível, carnes fora de série, pessoal solícito e ambiente bastante porteño... por P$ 9,00. (não vi nenhum outro restaurante tão bom por esse preço naquelas bandas).
Pós-almoço, saímos para o Malba... e vi o tão comentado Abapuru! Muitas outras obras interessantes, abstratas em grande parte. No térreo do museu há uma parede onde pode-se assinar o nome... porém somente no lugar correspondente a sua altura! Lá no 1,74 está Mike Weiss São Bento do Sul - SC... coisa de piá ficar escrevendo na parede, não??? (aposto que o Pedro iria gostar da idéia, não é Sr. Adriano?)
Seguimos para a Recoleta, passamos pelo BsAs Design, onde fica o Hard Rock Café e depois subimos para o Cemitério. Encontramos uns brasileiros por lá. Eu dei uma olhada no mapa logo na entrada e o pessoal começou a me seguir... pena que eu não sou muito bom em contar quadras de cemitério, acabou que achamos o túmulo da Evita pela quantidade de pessoas aglomeradas... ehehe Havia um túmulo com mais de 10 gatos em volta... coisa "sinixxtra" como diz a Ale. Depois do passeio fúnebre, outro roteiro de matar (o bolso!): Avenida Alvear. Lojinhas como Emporio Armani, Tommy Hilfiger, lugar onde o metro quadrado custa o mesmo que em áreas nobres de Manhattan!
Puts, queria ter escrito mais hoje... sobre a noite no pub do Hostel vai ficar para outra hora! Inté!

CAP 6

A noite no hostel é sempre uma criança... a impressão é de que há gente acordada durante toda a madrugada. Uma passada no computador para enviar mensagens à família, uns pães para matar a fome e é claro, muita QUILMES! Subimos para o "The Roof" (sala de festas/tv do Portal) para jogar snooker... digo, ver o pessoal jogar snooker, porque minha coordenação motora não é párea a do Topine, que é quase um malabarista e jogador de snooker profissional.
Enquanto o jogo rolava na mesa, eu bobão ficava na sacada, pensando na vida, observando as estrelas, a mistura de fios, telhados sujos, edifícios seculares ruindo, prédios envidraçados e os ponteiros lentos dum relógio iluminado (seria da Iglesia San Ignácio? quem souber, por favor dê um toque)... aquela paz era surreal, foi com certeza um dos highlights da viagem.
Aos poucos foi aparecendo mais gente, por falta de opção acabei puxando papo com uns americanos... e sabe que me surpreendi? Dois texanos, um dono de livraria e um escritor... gente boníssima, nem pareciam americanos! Eheheh
Deixando o preconceito de lado, o papo realmente valeu a pena... conversamos por mais de 3 horas sobre tudo, desde a influência do cristianismo na infeliz reeleição do Bush, até a origem dos problemas sociais no Brasil (sim, isso foi depois de algumas Quilmes)!
Fiquei muito feliz por ter conhecido aqueles caras. Sempre tive uma visão muito negativa sobre os estadounidenses... eles mesmos afirmavam que os EUA são uma nação de alienados e egoístas, que não se sentem bem sabendo que o governo deles é campeão da lei de Gerson...
Nesse interregno, chegaram mais duas irmãs australianas (não postarei adjetivos, pois pretendo manter esse relato disponível para menores de 18) e um Irlandês. Topine continuava jogando snooker e Dudu tinha ido dormir depois de ter cansado os ouvidos tentando entender o sotaque rebuscado das loiras.
Papo vai, papo vem... Todos sentados à mesa, Morcheeba no cd player, o Irlandês bonachão que não parava de falar sobre suas aventuras em Machu Picchu... e claro, as meninas de rostos angelicais da terra dos cangurus falando sobre a perda do passaporte. Eu disse angelicais??? Pois bem... a marijuana saiu da mão delas e inocentemente foi passada aos integrantes da mesa... (no, thanks) O americano, tão careta quanto eu, também não aceitou. Até aí nada demais, apenas achei interessante como as coisas rolam por lá, a maresia tomou conta da sala, mas ninguém reclamou... (depois dessa eu fui dormir, as meninas enrolaram tanto a língua, que o inglês delas estava soando javanês para mim)!
Estranho como as drogas rolam forte no meio mochileiro. Nossa moral, apesar de tudo, ainda é boa com as autoridades em geral! Espero que essa minha impressão tenha sido parcial...
Próximo capítulo: Alessandra Triste no Trem do Tigre.

CAP 7

Todos acordaram tarde, depois da noite no "The Roof". Café da manhã no Portal sempre demora, falta copo, falta suco, falta bandeja... mas no final das contas vale a pena, porque nesse meio tempo dá para conhecer muita gente interessante. Foi assim que conheci um pessoal de Israel, um jovem americano (que fala português perfeitamente), e mais uma companheira de viagem, a Karina... uma alemã alta, morena, olhos azuis e extremamente simpática... mas isso é papo para o próximo capítulo!
Felizmente nosso amigo texano (ainda durante a noite anterior) conseguiu convencer as australianas de que o passeio do Tigre é interessante (essa é uma tarefa difícil!) E assim, saímos todos acompanhados pelas musas de Sidney. As pobres meninas caíram na lorota do americano. Ele afirmava que no delta existem diversos "really big water pigs, kinda lake Ness monster"... acho que elas acreditaram. (será que ele não estava tentando descrever as capivaras?).
Pegamos o subte para a estação do Retiro, trem metropolitano até a estação Mitre (se não estou enganado) e depois o confortável trem de la costa, que logo após alguns minutos, possibilita aos passageiros do lado direito um panorama muito bonito do Rio da Prata e da capital argentina. Sem muita demora, parada na estação San Isidro. Uma olhada nos arredores, na Catedral... almoçamos cedo. O cheiro dos restaurantes estava convidativo, embora o preço nem tanto. As australianas são vegetarianas e tomam capuccino antes do almoço!!! Um verdadeiro pecado em terras porteñas... Nada! Pecado mochileiro e tentação foi ter que passar no Freddo de San Isidro para comer um pote de sorvete (acreditem, tenho fotos do crime).
Voltamos ao trem e descemos somente na estação do Delta, caminhamos até o rio. Logo na chegada fiquei decepcionado, realmente decepcionado (e eu não era o único... nada de "big water pigs" para as australianas). O cheiro no porto do Tigre é podre, de esgoto, estilo do Rio Tietê na marginal. Dali contratamos um passeio por P$ 10,00. A volta de catamarã é interessante... deixando o braço do rio, onde está situado o porto, as águas ficam bem mais claras e inodoras. A paisagem é legal, a arquitetura do Clube de Remo (situado numa ilha) é muito bonita, assim como as diversas casas de veraneio que permeiam o rio. Todas elas têm nome, e muitas possuem iates e praias particulares... As margens são todas preservadas e arborizadas com árvores tropicais. O rio é a fonte de sustento de muita gente, ele é essencial para o transporte, para o comércio e obviamente, para o turismo... parece uma estrada fluvial.
Na volta passamos pelo Parque de la Costa, que estava fechado. Entramos no Cassino, e de lá não saímos tão cedo (o Dudu e o Topine são viciados!) Eu não gosto muito de jogar, mas me empolguei em algumas máquinas... entrei com 10 pesos e saí com 30. Deu dó da Alessandra, que perdeu todo seu dinheiro (uns 25 pesos) por lá... a menina era persistente, só perdia, mas fazia questão de continuar!
A viagem de retorno foi "aborrida"... para animar os ânimos da Ale e Dani, paguei o jantar no restaurante Suipacha (perto da Corrientes com 9 de Julio). O ambiente é bem legal, cheio de cartazes antigos, tango na vitrola durante todo o tempo e atendimento muito bom. Comida simples e barata... pedi um Chandon Valmont Cabernet (que acabei tomando quase inteiro sozinho, me deixando um tanto alegre pelo resto da noite).
Chegando no hostel, já subi para o The Roof com duas Quilmes... (as boates estavam fechadas, lembram?) onde fiquei conversando com o grande amigo (cara de primeira marca mesmo) Topine. Ficamos por lá, na sacada, batendo papo até as 4 da madruga... puts! Bate saudades daquelas noites à toa na sacada!!!
O próximo dia, seria o último em Buenos Aires...

CAP 8

Teto aberto... mais um dia de muito sol! Durante o café da manhã, conheci a Karina, uma jovem alemã muito gente boa... nos mostrava um mapa muito simples da América do Sul, o Uruguai era sua próxima parada, partia ainda naquele dia! Coincidência... ficamos de conversar depois.
Com muita preguiça, partimos para uma volta tradicional pela Av. 9 de Julio e foto no Obelisco (já tínhamos passado por lá algumas vezes, mas a foto sempre ficava para outra hora)! Falando nisso, é legal passear pela Corrientes/9 de Julio durante a noite... muito tranqüilo! Do obelisco fomos ao Teatro Colon, qual já tinha a informação que estaria em reformas... entrei na recepção e consegui dar uma olhada... tudo desmontado, uma pena... talvez o maior azar da viagem. Na calçada conversei com um vendedor ambulante de café (vários tipos diferentes de café/chocolate/suco!) Ele nos indicou a estação de Tribunales (muitos mendigos e aparentes batedores por lá). A praça Lavalle é bonita, o Palácio de Justiça também. Descemos logo para o subte, que nos deixaria na estação Plaza Italia, quase em frente ao Zoológico, que preferimos não visitar... não era grátis. eheheh
O sol estava a pino, e nosso objetivo era chegar ao Parque Três de Febrero (popular Parque de Palermo). Ainda perto do Zoológico, haviam vários charreteiros... Estava tão cansado que cogitei "pegar uma charrete" até o parque. Puts!!! O preço era de P$ 40,00 para uma voltinha. Que nada! A última oferta foi de P$ 15,00 para 3 pessoas... mas o pessoal não aprovou a idéia, acabamos atravessando a deserta, longa e larga Av. Sarmiento caminhando... foi ali que encontramos os populares passeadores de cães, interessante.
Enfim, chegamos ao parque... comprei um litro d'água por 3 pesos. Meu bolso doeu, mas cada gota valeu a pena (na próxima mochilada vou carregar um cantil térmico!) O parque é bem cuidado, Rosedal é bonito, jardim japonês mais ainda... lugar ideal para levar a namorada!
Passamos por Palermo Viejo pela tarde... a ordem ao taxista era chegar à Plaza Cortazar. O tio do carro de teto amarelo não entendeu, disse que não conhecia... depois, lendo o guia com atenção, vi que TODOS os taxistas conhecem aquela praça como Plaza Serrano! Feito... que seja Plaza Serrano então, o que interessa são os barzinhos! rs
Fim de tarde, o pessoal resolveu voltar para o hostel. Eu, apesar de cansado, queria aproveitar meu último dia naquela cidade. Dei umas voltas de subte... interessante constatar como o porteño gosta de ler em todos os lugares... (pena no Brasil ser tão diferente). Tive a sorte de pegar o vagão de madeira da linha A novamente! Depois fiquei sentado na grama da Plaza de Mayo, observando os turistas, os trombadinhas... Enquanto planejava a viagem, ficava pensando na tal Plaza, e naquela hora eu estava ali... sozinho, sentido a energia daquele local onde aconteceu tanta coisa! Foi um momento muito legal, me marcou.
Tinha que me apressar um pouco, achar uma casa de câmbio para trocar alguns dólares e reais que tinha guardado. Eram quase 17:00 horas, caminhei a Florida inteira... as casas fecham as 15:00, como os bancos. Florido ficou meu pé! ehehe Me indicaram um câmbio no final da Corrientes... e lá fui eu andando, já estava cerrado também!!! Língua de fora, resolvi voltar ao hostel. Já estava com sede há algum tempo e não tinha um puto peso no bolso, só USD e REAIS.
Passei na frente de uma "suqueria" (sim, eu sou um neologista) e perguntei se não aceitavam dólares ou reais... a resposta foi NO. Aquilo me desconsolou... estava quase babando por aquele suco gelado de laranja, quando me chamaram... Hey, brasileño! Es sin cargo... no hay que pagar! Abri um sorrisão, bati um papo com o dono da loja e bebi o litro de suco como se fosse o último! Foi um exemplo de argentino gente boa...
Chegando no hostel, meu ânimo baixou. O Topine e o Dudu estavam partindo... não gosto desse tipo de despedida, sou meio bobão. Foi com um abraço apertado que os "cariocas gente boa" foram embora. Amigos: apesar do tempo curto, vcs estão aqui do lado esquerdo... to esperando vcs em SC!!!
Conversei com a Karina, ela estava indo de ônibus... combinamos de nos encontrar no Shirmann Munker.
23:30 foi a minha vez. Morocha e Cosa Rara (Dani e Ale) foram grandes companheiras... Ainda descendo no elevador escutava elas gritando Tchaaau!!! Não sei se era de felicidade ou tristeza, mas esse tipo de gesto o dinheiro não compra... saudades de vcs!

Próximo capítulo: Buquebus vale a pena?

CAP 9

Na Av. de Mayo fiz a extravagância de pegar um táxi até o Buquebus em Puerto Madero. O taxista puxava assunto, o mesmo de sempre... de onde venho, para onde vou etc... um cara muito gente boa, falava que o salário dos taxistas era péssimo em BsAs, dificilmente passava de P$ 800,00... engraçado como mesmo assim eles (a maioria) conseguem ser simpáticos e gentis.
Depois da primeira fila, fiz o check-in na sede bem arrumada da Buquebus... mais uma fila, preenchimento de formulário e encheção de lingüiça... ganhei um visto de 3 meses, como de costume, e ainda outra filinha kilométrica (ainda bem q tem revista e mapas grátis para aguentar a espera) para poder adentrar o Eladia Isabel. Preferi levar a mochila junto comigo para o navio... caminhando logo na entrada ficou a exclamação... "Baaaah, esse negócio não é tão pequeno"! Pensei que fosse algo como o ferryboat em Paranaguá/Guaratuba, mas é quase um navio de verdade, com elevador panorâmico etc... Entrei empolgado e já fui dando uma olhada no freeshop (que não tem nada barato nem interessante), bem lá embaixo na parte de trás muitas poltronas grandes e confortáveis (parecidas com as de ônibus), comprei um lanche e tentei descansar um pouco... pela grande área envidraçada dava para ver as luzes dos arranha-céus de Puerto Madero se distanciando... confesso que naquela hora fiquei realmente triste. O sono não vinha e aquilo estava balançando demais! Subi para o outro andar p/ dar uma bisbilhotada, tinha um restaurante muito bem equipado (tanto em equipamentos, quanto em funcionarias... huuuum as funcionárias da Buquebus, todas de saia! rs). Dali eu subi mais um pouco, era bem difícil caminhar, e quem o fazia, parecia estar num estado um tanto quanto ébrio! Havia uma porta para a primeira classe (trancada) e outra para o "solarium"... la fora um vento MUUUITO forte, a ponto de precisar usar de força para conseguir andar... mas isso foi só na saída. Ali existem alguns lugares onde dá p/ ficar tranqüilo (abrigado do vento) observando o Rio da Prata. As luzes da capital portenha já estavam bem longe... foi aí que puxei papo com uma montevideana muito querida. Ela tinha ido visitar uma amiga em Buenos Aires, amava Montevideo e tinha como sonho conhecer Baln. Camboriu... me deu algumas dicas da capital uruguaia e acabamos nos separando.
É estranho como algumas pessoas passam pelas nossas vidas: apresentação, troca de idéias, e um breve tchau. Eu sabia que dali a algumas horas já não lembraria mais de seu rosto, e dificilmente nos cruzaríamos novamente... tem um quê de mistério nessas coisas que me angustia...
Desci. Montei meu "acampamento" no restaurante do segundo andar, juntei duas poltronas redondas, mochila no meio e dormi pesado, embalado pelo Rio de la Plata.
BUUUM, scataplesh!!! Acordei assustado com o barulho e o tremor, algumas pessoas gritando, as bandejas do restaurante caindo... os funcionários correram e acalmaram o pessoal, dizendo que não havia razão para preocupar-se, em questão de minutos chegaríamos em Colônia. Até hoje não entendi direito o que aconteceu naquela noite... talvez um banco de areia ou algo assim. Só sei que "o cagasso" foi grande, e depois daquilo não consegui mais dormir... e não fui o único. Liguei o discman, Ben Harper me acalmou o ânimo, tirei umas fotos e vi que estávamos atracando em Colônia. Uma fila de mais de meia hora para sair...
Apresentação de documentos, revistaram a bagagem de muita gente, mas eu passei batido de novo.
Entrei no ônibus da Buquebus. Deu para ver alguma coisa da cidade... era mesmo como eu imaginava, uma São Francisco do Sul, no Uruguay, não bateu a vontade de ficar. A estrada para Montevideo era margeada por infinitas palmeiras... muito bonita. Eram quase 7 da manhã (bem atrasado) quando fui gentilmente acordado pela minha colega de poltrona dizendo que já estávamos na estação Três Cruces... a mulher era uma tagarela, não parava de falar sobre a cidade! Sim, o povo no Uruguay fala muito! Minha primeira impressão foi excelente... a rodoviária é limpa, organizada, tem escadas rolantes, lojas, câmbio, monitores no estilo aeroporto... agora só faltava achar o hostel!

CAP 10

Ainda na rodoviária, procurei as informações turísticas... opa, desculpe, procurei o o Ministério de Turismo (tudo lá é chamado Ministério!), já que não tive muito tempo para ler e pesquisar sobre Montevideo em casa. Todos ocupados, muita gente para atender... peguei um mapinha e fui para "luta". Dia nublado, bastante vento... bem diferente do clima em BsAs. Me senti em casa. Montevideo parece uma cidade média, lembra muito Joinville e alguns lugares mais escondidos de Porto Alegre. O primeiro detalhe é que a rodoviária nem aparecia no mapa! Caminhei até a Av. 18 de Julio seguindo as indicações do solícito povo montevideano... chegando na "dieciocho", não tinha nem idéia se deveria pegar um ônibus para "subir" ou para "descer" a avenida! Achei a Av. Rio Branco no maldito mapa que não mostrava o único hostel HI da cidade! Peguei o bus e desci a avenida até a Rio Branco. Enfim... chegar até a calle Canelones foi até mais fácil do que eu pensava. O Hostel Shirmann Munker é um casarão colonial espanhol onde fui muito bem recebido por uma senhora uruguaia simpática demais(que novidade hein!). Logo que eu cheguei no hostel, outros três mochileiros estavam chegando também... iniciamos uma conversa em inglês, falamos sobre o tempo, sobre a rodoviária Três Cruces e só depois fui perguntar de onde eles eram... (imaginava eu que fossem de qualquer país europeu, porque eram loiros e se enrolavam no inglês) Hahá... e veio a tímida e pausada resposta: 'We - are - from - Porto Alegre"! e eu: "Tá bom então, eu sou de SC, vamos falar português que é melhor"! rs.
Tomamos o terrível café da manhã juntos (achocolatado que não se dissolve e pedaços de pãozinho adormecido com manteiga)... eles saíram logo para dar o primeiro passeio, eu fiquei no hostel para tomar um banho e esperar a Karina que resolveu vir de ônibus (viagem bem mais demorada e segundo ela muito cansativa, pq na fronteira, ou seja, no meio da viagem vc precisa acordar). No quarto o pessoal ainda dormia (não gosto de chegar cedo no hostel! abrir os sacos plásticos das roupas faz muito barulho e incomoda todo mundo). O banheiro estava lotado, um cheiro insuportável, sujeira de todo o tipo nos boxes... só um chuveiro funcionava. Saí do banho e a Karina havia acabado de chegar... fiz inveja sobre as "aventuras" no Buquebus e logo depois saímos para dar uma volta. A esperada parada: Plaza Independência e Palácio Salvo ficam para o próximo capítulo!

CAP 11

Grande Karina, alemã de Ilmenau... conheci por acaso no Portal em BsAs. Ela vinha mochilando desde Lima, onde estava estagiando... simpática, animada, muito doida e espivitada. Depois de um tempo fui notar que ela tinha umas picadas nos braços (que não eram de mosquitos) um dos motivos pelo qual nossa relação não passou de uma sincera amizade mochileira. Passeamos bastante pela cidade de Cambio City juntos (era assim que a Karina se referia a Montevideo, devido ao excesso de casas de câmbio na cidade). A iluminação pública não é fixa apenas nos postes, ela cruza a avenida suspensa por meio de fios... a 18 de Julio, a avenida principal, é ladeada por edifícios antigos em plena decadência, quase sem pinturas, venezianas caindo... a impressão é de ter voltado 50 anos no tempo. E isso é o mais legal da cidade!!! Tirei algumas fotos p&b desses pontos surreais... tudo passa uma melancolia, abandono... típico de um país rico que está na miséria. Quanto aos diversos lugares que passamos, um dos pontos altos no Uruguay, foi conhecer a Plaza Independência. É um símbolo de Montevideo e do Uruguay... ali ao lado há um mini-mercado que tem sanduíches, sucos e tortas muito baratas... levamos tudo para viagem e almoçamos ali mesmo no banco da Plaza Independência, observando o Palácio Salvo. Falando nele, quem já viu alguma foto, sabe que é um dos edifícios mais bonitos, me arriscaria a dizer da América Latina! (muito mais bonito que a Casa Rosada ou outro edifício histórico de BsAs).
Passear com calma, sem destino, é o melhor que há para se fazer por lá... sempre tem alguma coisa interessante no caminho. Fomos ao Porto... e ali entramos no famoso Mercado del Puerto, um estilo diferente... tem um relógio de madeira bem ao meio... Não, infelizmente eu não experimentei a parrillada! Meu estômago deu um pulo só de ver aqueles miúdos... ehehe.
Já na saída do mercado fomos abordados por uns tipos "estranhos"... voltamos para o mercado e não deu nada... (bem que tinham me avisado que aquele local era perigoso). Não abalados, subimos para a Iglesia de San Francisco, Banco de Montevideo, passamos pela Catedral, pelo Teatro Solís, Intendência, onde há uma central de informações turísticas excelente e exposições de artistas locais. Ali por perto tem uma feira dos artesãos, grande a feira!
Bem no meio da 18, há uma pracinha com nome bem estranho "Cagancha" onde está a estátua da Liberdade, que nada tem a ver com a americana!
Um edifício que me chamou bastante a atenção foi o do Banco Oriental do Uruguay... neoclassista, com colunas gregas, um interior com vitrais... entramos por acaso e valeu a pena. (parece a Catedral de BsAs!).
Da calçada ouvimos uma voz estranha e alta repetindo: once once once once, resolvemos entrar, e era um leilão de antiguidades. Muita coisa interessante e barata (p/ não dizer de graça!)... quinquilharias em geral! Muito cômico ouvir um leiloeiro falando tão rápido em espanhol, não entendi uma só palavra a não ser o valor dos produtos que eram repetidos umas 15 vezes a cada lance.
Imperdoável em Montevideo é deixar de dar uma volta nas Ramblas. Elas são as "beira-mar" da cidade. Há um calçadão a perder de vista... praias, ciclovia, edifícios de luxo. Um lugar interessante, o local mais brasileiro de Montevideo... no entanto vazio demais para o meu gosto. Na subida para a Dieciocho levamos um gelo do caramba. Passamos ao lado de uns cinco indivíduos deitados na grama... eu olho para trás e estão os cinco caras correndo atrás de nós. Qual a primeira reação??? Ruuun Karina, run!!! (no maior estilo Forrest Gump, já que nós conversávamos só em inglês, porque a preguiça de falar espanhol era muita e o meu alemão se resume a alguns cumprimentos e palavrões). Sorte nossa foi estar passando um circular no qual pulamos e pedimos para fechar a porta. Pela janela ainda vi a cara de raiva dos caras. Êta gelinho, essa foi por pouco. Claro que nós facilitamos... passeando num lugar deserto num dia de semana com mochila (a pequena, de bagulhos) e ela com uma Canon com objetiva de 8mp no peito é pedir! O problema é que eu nem sabia para onde o ônibus ia, e qual era o preço... rs Por aí dá para notar que a crise no Uruguay está feia mesmo... o reflexo de um governo relapso é muita gente desempregada, e a ausência de policiais nas ruas.
Descemos logo depois e fomos ao Congresso... visitem. Vale o tempo perdido no ônibus (que passa por cada favela...). Enfim, gostei de Montevideo, do povo de lá que nos acolheu muito bem (local onde me apresentaram o hospitality club!) mas as noites são perigosas sim (houve outra tentativa de furto, quando estávamos numa turma maior perto do hostel - LUGAR MUITO PERIGOSO). As noites lá não são das melhores... fiquei num quarto sem janela, o cheiro é estranho, o colchão não é bom e acho que a roupa de cama não era limpa. Deixar coisas de valor no locker do quarto é impossível, porque não tem "trumbisco" para colocar o cadeado, a internet que é paga por minuto usado não estava funcionando, e somente membros da HI podem usar a cozinha (tá, eu usei mesmo não sendo sócio... rs). A Karina queria retornar para Colônia, ela é fascinada por cidades históricas... e eu estava ansioso para ir p/ Punta e região. Resultado: evitei a despedida (que eu não gosto mesmo!) deixando um bilhete para ela e me mandei... segui a filosofia hitchhiker de uns colegas Israelenses que estavam no hostel e fui para a saída da cidade hacer dedo. Péra aí... não é o que vcs estão pensando! Fui esticar o polegar, pedir carona... carona para LA PARTY PUNTA!!!:)

CAP 12

Mochila nas costas, pé na estrada. Me sentia feliz por deixar Montevideo para trás... (hoje sinto saudades). Segui as informações dos israelenses e lá estava eu na saída de Montevideo, esticando o dedo. Sabia que não seria fácil... mas como a vida sempre nos surpreende... 5 minutos depois um casal de uns 60 anos, dentro de um Ford antigo parou. Mais fácil e confiável impossível! Eles estavam indo para Punta, perguntaram se eu não estava com muita pressa, pois tinham que passar por Piriápolis para pegar uma documentação! Maré de sorte! Hauhauah, claro que não me importo!!! Foram algumas horas de viagem a incríveis 60km/h... e aquele mesmo papo de sempre "de onde veio, onde passou, para onde vai, futebol"... mesmo assim me diverti com eles. No outro dia estava verde de tanto mate que bebi na viagem.
Piriápolis pelo pouco que vi, não tem nada demais... uma praia ajeitada cercada de muito verde, muitas famílias. Estava só esperando a chegada em Punta, que não tardou. A descida pela elevação de Punta Ballena é um cartão postal, não tem como não bater aquele frio na barriga. Lá embaixo já dá para perceber que não é só mais um balneário como qualquer outro, em Punta está o "creme de la creme" do Mercosul (vários carros oficiais, inclusive um omega do governo federal brasileiro... Ferrari, Porsche e Jaguar também eram vistos).
Sr. Pedro e D. Ubaldina me deixaram perto do terminal, ali está um "Ministério do Turismo" que poderia me ajudar a encontrar um albergue, já que preferi não ficar em Piriapolis no HI (por vários motivos, entre eles por ser do mesmo dono do HI de Mvd, por ser grande demais, e por estar muito longe das baladas de Punta). Resumindo: cheguei no centro de informações turísticas e me informaram que não havia uma única vaga em nenhum hostel, hotel barato e que até o Conrad estava lotado! A essa altura vi a night de Punta indo pelos ares, e mais algum tempo perdido fazendo o trajeto de volta até o HI em Piriápolis.
NÃAAO! Isso não podia acontecer... Peguei todos os mapas da comuna de Maldonado e lista de lugares para ficar que tinha direito. Primeira tentativa seria o Hostel 1949, o único na península, a duas quadras do terminal, na Rua das Focas.
(#9835; som de samba no meu pensamento) Sou brasileiro e não desisto nunca! Ehehe. Com todo jeitinho que só a gente tem, cheguei na recepção do hostel com a maior cara de demolido e disse que tinha reserva em meu nome. O argentino do balcão não estava achando... revirou um livro todo rabiscado de anotações e não achou minha reserva (que coisa!!! rs)
Ele - Perdão, não há nenhuma reserva nesse nome.
Aí vem a parte teatral...
Eu - Como não tem??? Fiz minha reserva por telefone, a moça me pediu todos meu dados e por garantia meu número de cartão de crédito e eu passei tudo! Tem que estar aí! Ela falou que era um dos últimos lugares, mas me garantiu a reserva... "Xô no creo nesto! Berifica más una bês, por fabôr!"
Ele - Não encontro nada.
Eu - Olha meu amigo, tem que encontrar... eu fiz a reserva e estava contando com ela, não tenho mais nenhuma opção a não ser aqui!
Ele - (cara de desacorsoado) "un ratito por favor". (saiu do balcão)
Eu - (me matando de rir por dentro, e pensando: "quer ver que vai dar certo"?).
Uma mulher feia - Certo, prefiro acreditar em você... no momento não temos nenhum lugar, (agora vem a parte boníssima!) mas temos um quarto feminino com uma cama livre, você se importaria? Aviso que é a única forma...
Eu - (disfarçando a explosão de alegria) "No hay problema... gracias".
Subi para o quarto número 1, que estava vazio... bagunçado, com mochilas jogadas, sacadão com vista para toda a playa Mansa e explodi... Ihuuuuuuuulll, yahooooooo, hauhauahuaha BELEZA! ehehehe
Tomei um banho demorado (afinal tinha que fazer valer os USD 15 que custariam cada diária do hostel mais caro da viagem) e saí para a praia. Foto tradicional na estátua La Mano, caminhada pela Playa Brava, almoço num kilo perto da entrada do Yacht Club na Mansa (muito bom!).

CAP 13 (número da sorte!)

Resolvi passar no Conrad, passei batido pela recepção, peguei o elevador como se hóspede fosse e subi até a piscina!!! Pronto... lá estava eu, num dos melhores hotéis 5 estrelas do continente, cercado de gente desintere$$ante.
Desci para o Cassino, resolvi não jogar... afinal já tinha ganho em BsAs J.
Do Conrad fui até o sul da península para ver o farol, e a dita Punta... onde é considerado o encontro entre o Rio da Prata e o Oceano Atlântico. Adivinha quem eu encontrei no Farol? O grupo de Porto Alegrenses que estavam no HI de Montevideo... mundinho mochileiro é pequeno mesmo. Caminhamos juntos para lá e para cá pela Gorlero, pelas Ramblas... (o melhor de tudo foi poder falar um pouco de português de novo!). Eles queriam de qualquer forma ir ao Casino, pois estava para desabar água... eu queria muito, mass acabei indo, porque na chuva, mochileiro é como carro sem gasolina: só fica parado fazendo nhe-nhe-nhe.
Entramos no Casino... o mínimo em compra de fichas era de 10 dólares. Eu disse que ficaria só vendo eles jogarem... hã, quem disse que eu agüentei a tentação?
Lá fui eu gastar USD 10 em fichas! Quando voltei da fila eles já tinham perdido quase tudo. (me arrependi, pensei em voltar, entregar a ficha e pedir o dinheiro de volta porque aquilo ali realmente não é para bolsos magros como o meu).
Enfim... a gauchada queria me ver perder também, então acabei jogando, e eles do meu lado só rindo da minha cara de desesperado pq iria perder fácil fácil meus USD 10.
Joguei nas máquinas de 25 cents... de cara perdi 75 cents.
Eu - Sabe do quê? Vou é colocar a aposta máxima... ser perder, perdi! F***-se
Máquina - Bluuuuum-ratatatatatéeeeu-téu-téu
plec (caiu uma moedona escrito $10)
Eu - Puuuuuts, ganhei 10 USD!!! Huahuahauhaha
Sem perder tempo fui para a fila de troca, pedi que me desse tudo em pesos uruguayos e de lembrança apenas uma nota de 1 USD... a verdade é que tenho sempre na carteira uma nota de um dólar do ano de 1988, que ganhei da minha mãe... e junto da nota velha, deixei esta outra nota, já que simbolizou o fechamento de um dia de muita sorte! (conseguir carona rápido, a vaga no hostel, encontrar o pessoal de POA, a chuva que me fez ir ao Casino...)
Do Conrad fomos ao supermercado logo em frente. Ali eu fiz a festa! Era a segunda vez que eu gastava dinheiro do Casino com comida boa. Comprei chocolate, iogurte, bolachas, um refrigerante com sabor de uma fruta diferente (não lembro o nome) mas era muito gostoso, da marca Paso de los Libres... (sim, até refrigerante virou artigo de luxo para mim em Punta).
Fui até a rodoviária com o pessoal que estava voltando para Montevideo... uma pena! Segui para o hostel meio chateado por estar sozinho novamente, e já com saudades da família batendo entrei num locutório na Av. Gorlero... liguei para mãe, namorada, prima... todas ligações rápidas, mas o resultado foi PU$ 200,00 de prejuízo. Um verdadeiro assalto, os locutórios da rodoviária são bem mais baratos e ainda assim eram caros (compre cartão telefônico no Uruguay!).

CAP 14

PC do hostel não estava funcionando, cozinha estava lotada de gente, na sala de tv muitos australianos falando mal das mulheres uruguayas e comentando sobre o quanto foram requisitados e o quão superiores são aos latinos... preferi subir para o quarto para fazer as anotações do dia. Assim que entrei no quarto, duas inglesinhas ficaram surpresas quando souberam da minha estadia no mesmo quarto delas. Conversamos sobre Londres, Buenos Aires, Rio de Janeiro, diferença entre samba e axé, sobre a famosa falta de fidelidade dos homens brasileiros (conceito delas!) etc etc O sotaque britânico é algo que me fascina... poderia ficar horas conversando, embora o papo nunca ultrapassasse a linha das amenidades (sim, elas eram meio curtas).
Entrou pela porta uma loira de olhos azuis, gata... já chegou se apresentando, falando pelos cotovelos. Sabrina... (já comecei gostando do nome, mesmo da minha maninha) é contabilista e mora na Alemanha. Fez mil perguntas sobre o sul do Brasil e acreditava em algumas barbaridades que o Lonely Planet escreve sobre Santa Catarina. Saímos para comer pizza na Gorlero e o papo se prolongou bastante... no outro dia cedo ela estava pegando um avião para Foz. Quando acordei ela já tinha partido...
Preparei o café da manhã para um pessoal, caronei para La Barra e depois bus para Jose Ignácio (não gostei!). Mais umas voltas, sorvete do Freddo, big mac em Punta tem um sabor estranho, o mar é mesmo gelado, as coisas são caras de verdade e os gringos bebem champagne de manhã no iate...
Me enjoei dessa vida de pobre-rico, fui pro terminal comprar meu bilhete de volta para casa. Todo o esquema que tinha armado para parada no Chuí foi por água abaixo, passagem promocional era só em um dia da semana (que não lembro) e os horários iriam me obrigar a passar uma noite na fronteira. A EGA que era minha segunda opção só iria sair dali a 2 dias, resolvi voltar de TTL num ônibus comum... mais barato e parecia ser eficiente. Comprei... o bilhete dizia San Carlos - Balneário Camboriú, perguntei se tinha q comprar outro bilhete de Punta para San Carlos, e a moça do balcão disse que já estava incluso. OK...
Já era tarde e no hostel combinamos a saída para a balada... a tão comentada balada de Punta del Este!Saímos em direção à La Barra num carro alugado por uns noruegueses meio quietões... no caminho muita festa, movimento, só o ritual de chegar até lá já valia a pena. Quase ao lado da ponte ondulada (Leonel Viera) estava o local escolhido a dedo: a Mint... mais famosa e melhor equipada casa de Punta. A facada no bolso foi grande, a mesma proporção foi o prazer de estar lá... som bombando, laser, gelo, mulherada de top, mulherada sem top... viajei, inconsciente, esqueci que o mundo existia e o dia amanheceu... o meio-dia chegou e eu acordei com dor de cabeça.

CAP 15

Fiz um miojo e me mandei para a Av. Franklin Roosevelt onde consegui carona até a entrada de Punta Ballena na ruta 10. Fotos no mirante, caminhada de uns 3 kilometros até o destino final, a Casapueblo... um cartão postal da região, o qual desde meus planos iniciais da viagem se fazia imprescindível no roteiro, embora não seja tão difundida. É um hotel-museu, idealizado pelo artista Carlos Paez Vilaró... A obra teve início em 1958 com latas, pedaços de navios e ripas de madeira. Vilaró prosseguiu com cimento e cal, sempre pintando o exterior de branco e interior com o encanamento em relevo nas paredes, como se fossem veias de um ser, que hoje possui mais de 70 quartos.
Estar ali para mim não era apenas estar ali... era quase um mito. A entrada era gratuita, mas só para a parte superior... o resto deveria ser acessado somente por hóspedes. Nada, nada mesmo podia me impedir. Mais uma vez desci com o elevador, disse ao ascensorista que estava hospedado lá, e que tinha acabado de chegar... cheguei ao andar térreo, e lá fiquei sentado na beira do Rio da Prata, onde as ondas quebravam com força, o sol se refletia na água escura que contrastava com todo o branco da construção em volta. Olhei para cima e senti que estava lá... me emocionei (sim, tenho gens italianos no sangue). Cheguei no lugar que me remetia à infância, confirmava que tudo pode ser melhor do que a gente imagina.

Para quem não conhece, talvez não tenha muito sentido...
Segue trecho dos versos de Vinícius de Moraes:

La Casa

Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão... ...

Esse foi um dos temas musicais da minha infância... sempre na voz de minha mãe antes de dormir, ou nas rodas de violão quando a família estava reunida...

Poucos sabem que Punta Ballena foi inspiração para muitas obras do poeta, e ali foi composta esta canção para seus netos. Tal casa engraçada é hoje denominada Casapueblo...

Seqüência original:

"Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali, mas era feita com pororó, era a casa de Vilaró".

Depois das fotos, e de quase uma hora paralisado naquele lugar, minha nostalgia foi quebrada pela cutucada de um guarda... perguntou qual era meu quarto, eu não respondi, e ele retrucou dizendo que aquela área é privativa para hospedes e me acompanhou até a saída...
Lá em cima, no estacionamento eu sabia que a minha jornada tinha terminado... e a sensação foi ótima.
Peguei carona com uma família de Mendoza até a porta do hostel, me apressei, pois dali a uma hora e pouco partiria meu bus.


CAP 16

Check-out, adios muchachas. troquei todos meus pesos por reais antes de ir para a rodoviária, pois o ônibus não tinha paradas dentro do Uruguay. Mc Donalds de novo, muita fila... cheguei na rodoviária com 15 minutos de antecedência. Fiquei tranqüilo no banco conversando com umas argentinas e esperando o bus Copsa que me levaria até San Carlos onde eu pegaria o TTL. O ônibus chegou, me despedi e puxei papo com dois irmãos gringos, perguntei se eles também estavam indo ao Brasil... estavam sim, e estavam também com um bilhete diferente do meu. Eles tinham um bilhete da Copsa de Punta para San Carlos! E eu não... pois tinham me informado que estaria incluído no trecho internacional que comprei. Resultado: o ônibus já estava saindo, todos dentro e eu não tinha um tostão para comprar o bilhete... não daria tempo de ir até a casa de câmbio, não tinha caixa eletrônico no terminal, a Copsa (Bus del Atlântico) não aceitava reais como pagamento, nem cartão de crédito porque o valor do bilhete era muito baixo.
Gritei para o holandês segurar o ônibus porque eu iria dar um jeito! Chorei a cortesia do bilhete, falaram que eu estava enganado que essa informação não era verdadeira (acho que eu entendi errado mesmo), tentei trocar reais com outros passageiros e ninguém aceitou... de repente deu um estalo (acendeu a lâmpada na cabeça) Na verdade eu tenho dinheiro sim! Tenho 1 dólar novo (aquele do Conrad, de lembrança do dia de sorte) e a nota velha de estimação... perguntei ao caixa da Copsa se ele aceitaria dólares e quanto custaria... ele respondeu: 1 dólar!!! Dei um pulo de meio metro... continuei com minha nota de estimação, e a nota do dia de sorte me salvou! Não pude acreditar... aquilo foi muito legal. Legal também foi o motorista que me deixou viajar de pé até San Carlos, porque o bus já estava lotado.
Uma hora depois, na dita San Carlos, chegou o TTL. Era um bom ônibus, placa de Porto Alegre, pessoal muito gente boa, poltrona confortável e o mais importante para mim: ele era silencioso.
Depois do lanche à bordo entregamos os documentos para o auxiliar, já que na fronteira ninguém precisa descer, então quem quisesse, poderia dormir cedo. Eu estava sem sono, fiquei relembrando os momentos:

Fade in - Eu sentindo a força das cataratas do Iguaçu... fade out
Fade in - Na sacada do Portal em BsAs, Quilmes... céu estrelado...fade out
Fade in - Deitado no gramado da Casa Rosada... fade out
Fade in - Tomando suco de manga e vendo o Palácio Salvo... fade out
Fade in - As ondas batendo forte no paredão da Casapueblo... sobe a câmera.

Logo que acabei de comer, foi colocado um DVD... inacreditável quando vi qual era o escolhido. Sociedade dos Poetas Mortos... um grande filme!
Pude crer que realmente todo fim tem um início, e que o ciclo tinha se fechado de forma perfeita (pareceu montado!). A viagem foi encerrada com a mesma mensagem que marcou o seu início...

CARPE DIEM! disse Robin Williams na tela, repetindo a frase que meu celular mostrou quando desliguei ao sair do trabalho naquela sexta-feira, dia 07.

E é esta mensagem que deixo aos mochileiros que tiveram a paciência (saco!) de ler este relato... muito boa viagem para vocês, apoio do ser superior e suerte!




"Carpe Diem" quer dizer "colha o dia". Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente!

Abração!
Mike Weiss

 

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